O BRONX: tremer a tabaca, ato político

24 de julho de 2017

A partir de um projeto voltado à afirmação do hip hop e da cultura negra, a ONNi convidou o coletivo O BRONX para contar a sua história com um editorial e um shortfilm inéditos.

Criado em 2016, o coletivo de jovens porto-alegrenses vem propondo uma reflexão sobre a negritude e os seus entornos através da representatividade. A festa O BRONX acontece mensalmente em diferentes locações do centro de Porto Alegre e, em todas as suas edições, corpos livres, negros e empoderados transitam pelo rolê.

Os materiais são protagonizados por convidados de Clara Soares e de Rhuan Santos, produtores da O BRONX, a  produção de conteúdo foi executada pelo Coletivo Balsa e a assinatura do projeto é da ONNi.

 

 

 

BRONX from Kim Costa Nunes on Vimeo.

O Bronx em pleno centro de Porto Alegre

Roberta Fofonka*

Não tão Harlem nem tão Brooklyn. É bem no estômago do centro de Porto Alegre, a capital mais ao Sul do Brasil, que o Bronx acontece. Mais precisamente numa Garagem da rua Júlio de Castilhos – que de dia é estacionamento e de noite, uma vez por mês, é onde a galera se encontra para tremer a tabaca.

“Bronx é uma festa de minorias e baixa renda”, ponto. A explicação sucinta é de Rhuan Santos (90’s hustla), 22 anos, que mora com a mãe no bairro Lomba do Pinheiro e acabou de trancar a faculdade de arquitetura e urbanismo na UniRitter. Todo mês, ele e Clara Soares (Cocoa Mami), 20, dão à luz ao Bronx porto-alegrense – que já rolou até em pavilhão de escola de samba, parque aquático, debaixo de viaduto, juntou mais de 900 pessoas e trouxe uma das estrelas do funk atual, a carioca MC Carol.

Clara é estudante de modelagem e costura e trabalha para uma agência de modelos. Ela reside na Restinga, com a mãe e o irmão. Foi numa tradicional festa com temática negra de uma casa noturna da cidade que ela e Rhuan se conheceram. E, juntos, entenderam que não se contentavam mais com o que a noite porto-alegrense oferece para jovens como eles, negros e da periferia, ligados em música, estilo, donos de seus corpos e do senso crítico da sua geração.

A ideia era fazer um rolê que eles mesmos pudessem curtir.

“Nunca teve uma festa que a gente gostasse 100%”, conta Clara. Isso porque Porto Alegre está cheia de baladas inspiradas na black music, na sua estética, manos e divas, mas nenhuma delas chega ao ponto de ser uma noite negra de verdade – porque simplesmente os negros não estão lá.

“As outras festas usam a música e a cultura negra, mas não incluem”, Clara diz. A começar pelos preços, que normalmente partem de R$ 25,00. E pelo perfil dos DJs que são recrutados para tocar nestes locais. Poucos deles são negros. Aí o Bronx precisa existir para fazer as suas escolhas. “A maioria das festas são de protagonismo branco, a gente tá acostumado com isso. E agora eu estou vendo um protagonismo negro e não quero que isso mude”, sentencia o garoto. “Acho que todo mundo tem que vir no Bronx, viver e ver isto de perto”, emenda ela.

Com ingressos a R$ 15 reais, Catuaba a R$ 5,00 - podendo ser paga pelo vale-refeição ou pelo app ONNi - e “kit” de vodca e energético acondicionado em um balde de limpeza, com gelo. Na caixa, do rap estrangeiro ao funk daqui, tocados por mãos de pele preta. E o que se vê lá a partir disso? Muita, mas muita gente empenhada em dançar como quiser. Ou como a Beyoncé. A performatividade está presente em muitos dos corpos montados (e desmontados) sob a cultura do tombamento. A música, negra como a maioria da lotação na casa – e da população do país – invade em espiral da nuca ao quadril de quem quer que esteja lá dentro. Se há algo que tem no Bronx é quadril.

Largas ou não, com ou sem gênero especificado, as pélvis balançam com rap, hip hop, trap e R&B, sons que vertem lá do Bronx legítimo, o estadunidense. Tem também cabelo, trança, beiço, beijo, gay, lésbica, travesti, hétero, Irene, preto, suor, branco, fumaça, brilho, roupa de marca, roupa sem marca - e ninguém parece muito se importar com nada disso. “A gente está conseguindo unir várias tribos”, enxerga Rhuan.

“No começo, muitas pessoas não entenderam quando chegaram e viram um monte de gay em cima do palco”, ilustra Clara, particularmente porque “há um estereótipo do rap que é muito machista”, completa Rhuan. Mas agora, na nona edição do evento, eles acham que essa ideia já se dissolveu: “O Bronx é um lugar pra tu ser o que tu quiser”, pontua ele. “Para as pessoas serem quem são”, considera a amiga. Há quem diga que não exista diferença entre uma coisa e outra. Unânime entre os dois é o veredicto de que seremos respeitados por qualquer uma das escolhas.

Para terminar, o recado de uma geração está dado por um jovem negro, homossexual, periférico, desde o sul embranquecido do Brasil: “é muito mais feio ser homofóbico do que ser gay hoje.” Beijos.

*Roberta Fofonka é jornalista e artista, radicada em Porto Alegre. Atualmente vive a fusão das duas coisas. Escreve diariamente para o Jornal do Comércio e faz parte do coletivo de performances Sapedo Arte Menor. Gosta de trabalhar na rua.